Bilhete

Não havia o que dizer. Nem como explicar. Ela só precisava escrever para que houvesse palavras onde buscar sentido.

Ensaiou e temeu e teve medo do inevitável. Mas, ainda uma vez, confiou que ia passar. Que seria suportável o doer. E esperou o sol vencer a noite.

Esperou com o choro contido. Esperou com o peito apertado. Esperou com mil vozes, incansáveis e invisíveis ecoando dentro de si.

Esperou. E escreveu um bilhete. Não havia o que dizer. Nem como explicar. Mas era preciso deixar palavras onde, se fosse preciso, as pessoas buscassem sentido.

A mulher na caixa

Vivia naquela caixa desde que se lembrava. Em algum momento, não se sabe quando, sentiu que as bordas eram demasiado pequenas. Pensou que tudo que havia lá dentro lhe roubava espaço. Se encolhia numa das quinas, e se julgando invisível, rogava aos invisíveis com fúria e o egoísmo próprio dos que ainda não viveram, que tirasse tudo dali. E como num passe cruel de mágica o espaço lhe fora entregue. Primeiro uns metros, depois outros metros. E de repente a caixa era grande e amedrontadora demais para que pudesse estar lá. Eram metros infinitos os que se foram.

Alguns dias olhava pelas paredes transparentes e lá fora havia vales. Talvez um daqueles sorrisos fosse o seu, que por algum motivo fugira de si antes que ela mesma pudesse estar lá. Ansiava o sol sem filtro. O som sem filtro. O sabor do sal que não escorre dos olhos.

Um dia, respirou fundo e voou. Tão alto quanto imaginou que fosse possível. E durante algum tempo sentiu a brisa e se julgou livre. E foram esses os dias de todos os sentidos aguçados. Um pássaro girassol feito de sorrir. Água friazinha escorrendo pelo rosto morno. Até que os pés tocaram novamente o chão. Secos e frágeis. Árvore sem raízes. E outra vez estava no centro da caixa, ainda mais vazia, ainda mais sem cor. Uma imensa ferida consumindo tudo que não se pode ver. Não havia asas. Não havia cura. Ao longe pequenos degraus em pink e tarjas pretas. E uma faixa de energia sobre o peito lhe dizendo baixinho: calma, vai passar.

Sobre amor e saudade

Em meu peito um universo prestes a explodir
Entre lembranças e sorrisos e crenças cambaleantes
Um mundo de lágrimas que teimam em não cair.
Certezas ajoelhadas perante a saudade
E uma interrogação afastando todos os pontos
Talvez em algum lugar
Duas mulheres crianças cantem cantigas de feira
Enquanto celebram o reencontro
Talvez em algum lugar a finitude seja apenas
Uma palavra sem sentido ou obsoleta
Talvez em algum lugar dor e solidão
Não passem de sombras tênues de um passado alheio

Há frio, e desamparo, e um choro que liberta.

Brasília, 24 de junho de 2014, pela partida da minha amada tia Rita.

A morte de Miguel e a invisibilidade das Mirtes do Brasil

Mirtes Renata seria só mais uma mulher preta, mãe solteira, se virando para sobreviver no dia a dia bruto desse mundo desigual, se não fossem os tristes acontecimentos daquela tarde. Em dia de protestos antirracistas, foi a tragédia que tirou a invisibilidade de Mirtes e Miguel

Terça-feira, 2 de junho de 2020. O Brasil virtual atinge pico de postagens contra o racismo. Mirtes saiu cedo para pegar no batente. Ela é empregada doméstica, trabalha em um dos apartamentos do prédio Píer Maurício de Nassau, no bairro de São José, região central do Recife. As famosas “Torres Gêmeas”, ícone controverso do jeito de viver da elite pernambucana. Pela mão leva o filho Miguel, de cinco anos, através dos muitos quilômetros que separam a periferia do centro. Não há creche, estão fechadas por conta da pandemia da Covid-19 que há mais de três meses atinge o país.

Mirtes Renata seria só mais uma mulher preta, mãe solteira, se virando para sobreviver no dia a dia bruto desse mundo desigual, se não fosse a tragédia que aconteceu naquela tarde. Ela saiu para passear com os cachorros da sua patroa. Miguel ficou no apartamento, sob a responsabilidade de Sarí, a patroa, que fazia as unhas com manicure atendendo em domicílio. O menino chora para ir encontrar com a mãe, faz birra (um clássico da fase dos cinco anos. Quem tem filho sabe). Corre para o elevador. Sarí desiste de evitar. Aperta algum botão do elevador e deixa que o menino se vá. Ele sobe até o sétimo andar, depois até o nono e desembarca. No gradil do hall de máquinas se debruça, possivelmente procurando ver a mãe, e cai. Miguel foi socorrido, mas não chegou com vida ao hospital.

Sarí Gaspar Corte Real foi autuada em flagrante, por negligência, e saiu após pagar fiança de 20 mil reais. A partir desse momento, para a imprensa pernambucana ela seria apenas a patroa, a empregadora, a mulher que não teve sua identidade revelada. O vídeo com as evidências em um primeiro momento não foi divulgado, apesar de ser citado em detalhes, acompanhado de um elogio ao trabalho da perícia que refez o passo a passo do que aconteceu na hora que o elevador parte do quinto andar, com Miguel, sozinho ali dentro. Mas ele continua passando na minha cabeça desde que soube desse fato, se repetindo, e o rosto de Miguel é o rosto do meu menino preto, aos cinco anos de idade. É o sorriso do meu menino que vejo se esvaindo, por 35 metros, até o fatídico encontro com o chão.

Mirtes Renata Santana da Silva, a empregada, a mãe do menino que caiu. É fácil encontrar seu nome e perfil nas redes sociais. Não há um adjetivo para descrever a mãe que perde um filho, penso nisso enquanto escrevo este artigo. Talvez porque não haja como descrever o tipo de dor, mesmo que as mães da periferia a conheçam tão bem. Nas fotos ela, tão jovem, sempre sorri. E corre. E brinca carnaval. E agradece a Deus e às outras mulheres de sua vida a oportunidade de celebrar com festa os cinco anos do seu filhinho. E eu leio ali sororidade, resiliência, e a solidão que embala a vida das mulheres negras. E isso também me dói. Mirtes é a mulher jovem que emoldura sua foto do Facebook com um bem-humorado apelo para que as pessoas fiquem em casa. Ela não pode ficar porque para muitos, no nosso país de herança escravocrata, serviço doméstico é essencial e ela tem que escolher a melhor estratégia para sobreviver.

No Brasil 6,356 milhões de pessoas sobrevivem trabalhando nos serviços domésticos. 97% delas são mulheres, em sua maioria negras e com baixa escolaridade. Dessas, apenas 1,757 milhão atuavam com carteira assinada. Os dados são da última divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). A informalidade continua sendo traço principal no serviço doméstico, embora desde abril de 2013, esse trabalho seja regulamentado por lei. Um conjunto de normas para a profissão, incluindo obrigações de empregadores, foi sancionada em 2 de junho de 2015. O pior dia da vida de Mirtes aconteceu exatamente cinco anos depois da sanção da Lei que deveria garantir dignidade e segurança ao seu labor.

A resistência à regulamentação do serviço doméstico no Brasil vai além de questões econômicas, é um dos piores traços do racismo estrutural que nos adoece cotidianamente. É cunhada sob a mesma lente maldita que embrutece o olhar sobre corpos negros. Que naturaliza as balas perdidas dentro da van, dentro de casa, na camisa do uniforme da escola. Que relativiza os segundos que uma pessoa pode aguentar sem respirar. Que transforma pinho sol em arma química. Que faz algumas vidas importarem menos que outras. A mesma lente que embota os olhos de quem vê uma criancinha de cinco anos e por conta da cor da sua pele não pensa que como qualquer outra, ela só precisa de um colo, de uma distração ou de alguns minutos de atenção e cuidado.

Miguel Otávio Santana da Silva será mais um nome na nossa revolta, no nosso inconformismo e será só isso se não formos capazes de trazer ao mundo real desdobramento para as hashtags. Se não refletirmos sobre o racismo que está no nosso DNA como nação, como sociedade, mas também nos pequenos gestos do nosso cotidiano. Superar o racismo só será possível se tivermos condições de reconhecer privilégios, de rever atitudes costumazes, mas principalmente, depende da nossa capacidade de pensar conjuntamente questões como economia e raça, entendendo que classe tem cor e que essa é uma relação estrutural impossível de ser analisada a partir da fragmentação.

A história de Mirtes, para além da tragédia e do horror que pontuou sua Blackout Tuesday, continuará naturalizada e anônima enquanto insistirmos em olhar esse fato como a história de uma mulher e não de milhares de mulheres, como uma notícia extraordinária de jornal, enquanto pensarmos que punir uma pessoa, atendendo nosso justo e sazional desejo de justiça, resolverá essa dor lancinante que cala no peito do povo negro dia após dia, através dos séculos.

Ana Cristina Santos é jornalista, pesquisadora sobre comunicação alternativa e popular e doutoranda em Comunicação na Universidade de Brasília.

Quando chamo tempestade

Chove em teus olhos as nuvens que guardei
Eu as escuto, longe, e temo, por ti, os trovões
Fui em quem chamou a tempestade
Os ventos e correntes arrastando o todo
Fui eu quem chamou
Com minha língua que se pronuncia seca
E minha alma abrigo de sementes estéreis
Apavorada de fome, doença e caos
Galhos inertes erguidos ao universo.
Água que vem de fora, que lava a gente
Risco de ira no céu, que cega e faz ver
É meu o tornado, o ciclone, a devastação
O nó na garganta. Breu que engole o farol.
É meu o joelho no chão e o cansaço
E o sussurro que se despede sem partir
Fui eu quem chamou a tempestade
Num eco de silêncio que devasta o porvir
No peito, pedra que anseia ao menos sereno
Para quem sabe, algum dia, deixar de existir.

Por ali

Entre uma e outra esquina
Provavelmente me perdi de mim
Flutuando entre palavras desconexas
E infindáveis tons de azul
Fui seguindo ao sabor das brisas
Piscando rápido ao olhar o sol e
Repetindo um sussurro inaudível
Até ser mais flor que borboleta
Raiz no lugar das asas
E um desejo absurdo de voltar a voar.

42

Já se põe o sol
Meus olhos se perdem.
No verde infinito dos vales,
Sentidos adormecidos
Anestesiados de felicidade
desconhecida.
Pétalas azuis
Desabrochando de raios dourados
A noite mais iluminada que se viu.
Amanhece tão rápido!
O peito carregado de escuro
Olhos arregalados diante da cegueira
E um pranto que não cessa
Que se arrasta baixinho
E não sabe se é noite ou se é dia
Que as vezes sorri
Mas jamais se levanta
Que segue sangrando
42 primaveras antes e depois.

Um poema que não quero perder

Abierta la sombra, de Miguel Angel Bustos

Hoy he buscado

los pájaros en mi pecho.

Pesado trino, duro puño

suspendido del centro del alma.

Hoy me he defendido

de la calle y el árbol, 

de su muro de plumas y lenguas.

Hoy tengo miedo del canto loco

que de mis entrañas sube.

Hoy temo el silencio.

Quiero el vuelo de mis pájaros

como he de quererte!

Hasta que ala por ala

abierta la sombra

nos besemos libres.

 

Gracias, Rádio Gráfica!

 

Despedidas

Revejo momentos
E intenciono ser
Outra vez
unidade, bit, algoritmo
Flutuando online
Numa nuvem de superficialidade
e mentiras pactuadas
Me escondendo bem a vista
Postada, publicada e invisível.
Planejo orientar o adeus
Dizer que tudo ficará bem,
Sem combustível para medo
Mas não há caminhos nessa fuga
Nem o oráculo que tudo sabe
Tem respostas para mim.
Navego no esquecimento
Na dor que a rede não embala
Me mantenho sangue,
Músculos e alma
Desconectada da tela
Hipnotizada
numa sequência infindável
De memórias
Sonhos
E esperanças torturantes.

Haveremos todos de sobreviver.